Resenha do Livro Musicoterapia e Autismo: Teoria e Prática

RESENHA DO LIVRO MUSICOTERAPIA E AUTISMO: TEORIA E PRÁTICA

 

GATTINO, Gustavo Schulz. Musicoterapia e autismo: teoria e prática. São Paulo: Memnon, 2015.

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                                                                                                                    Por Líliam Ameal[i]

1 Apresentação

Este livro é resultado de material elaborado em pesquisas e prática clínica do autor que dá um novo olhar à Musicoterapia como técnica de tratamento do Autismo. A teoria examinada ilustra a troca de conhecimento de outros autores para com o autor, e a prática representa a troca de conhecimento do autor para com o leitor. Apesar do aumento dessa prática, há poucos livros sobre o tema; a obra pretende preencher essa lacuna. Vários termos são empregados para caracterizar esse distúrbio e o autor dá preferência à terminologia indivíduo com Autismo.

2 A musicoterapia aplicada na integração social do indivíduo com Autismo

O capítulo 1 contextualiza o termo Autismo na história. Expressão utilizada em 1911, por Bleuler, que designava criança com dificuldade de se comunicar e que havia perdido contato com a realidade. O diagnóstico do Autismo é uma decisão clínica subjetiva feita por observação direta que usa critérios e escalas que possibilitam seu embasamento.

Evidências apontam o Autismo como um transtorno de causa multifatorial genética e ambiental. O manejo terapêutico é obtido por vários tratamentos e a Musicoterapia propõe melhorar a qualidade de vida aumentando

a autonomia e melhorando a convivência social do indivíduo com Autismo.

O capítulo 2 trata do processamento auditivo-musical de indivíduos com Autismo e informa que essas pessoas apresentam funcionamento sensorial atípico não se compreendendo, totalmente, esse funcionamento em relação à música. O funcionamento auditivo dessas pessoas é diferenciado e esse processo precisa ser mais bem explorado para que evidências mais concludentes possam ser demonstradas.

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O capítulo 3 informa sobre uma nova corrente, além da neurociência que trata dessa temática: o estudo químico e biomolecular com foco nos neurotransmissores e hormônios que investiga o efeito da música no indivíduo com Autismo e a quantidade dessas substâncias.

O Capítulo 4 trata da história da Musicoterapia aplicada ao Autismo destacando pesquisadores, artigos, eventos e modelos dessa prática desde seu início, em 1940, até 2014.

O Capítulo 5 apresenta visão geral da avaliação em Musicoterapia aplicada às pessoas com Autismo cujo estágio inicial mensurou comportamentos relacionados à música utilizando instrumentos adaptados de outras disciplinas e medindo sua influência na pressão arterial, batimentos cardíacos, tônus muscular, testes psicológicos e psiquiátricos.

A obra questiona a importância da sistematização dos instrumentos de avaliação por meio da validação que justifica o uso de uma escala como instrumento seguro.

O capítulo 6 trata de modelos de Musicoterapia aplicados no Autismo e afirma ser possível reunir diversos elementos dos modelos existentes caracterizando um atendimento. Esse capítulo faz ainda uma referência à Musicoterapia Improvisacional, abordagem com mais experimentos voltados ao Autismo e que cria relação de segurança entre paciente e terapeuta. Os três modelos apresentados pelo autor não são os mais populares no Brasil, mas descrevem sua prática no Autismo.

  • A Musicoterapia Offleva em conta o desenvolvimento geral e da personalidade, a situação familiar para atender necessidades do paciente e tem o conceito de interação responsiva ao combinar filosofia humanista com psicologia do desenvolvimento.
  • O Modelo Campo do Tocar → criado por Carolyn Kenny é resultado de vivências dos rituais xamãs junto às tribos Navarro que verificou a existência de fenômenos similares aos ocorridos na Musicoterapia. O autor investigou no Brasil relações entre esse modelo e práticas dos índios Kaiová e descreveu propostas de modelo musicoterapeuticos com exemplos nesses rituais cuja abordagem consiste em fenômenos básicos, denominados campos (três principais e quatro secundários), que ocorrem numa sessão de Musicoterapia conforme a seguir: (a) O campo estético trata valores, crenças e atitudes. (b) O espaço musical é o momento de preparação dos sons e instrumentos no ritual e de teste dos instrumentos na Musicoterapia. (c) O campo de tocar é o principal campo; no ritual destina-se às músicas de prece, danças de guerra e luta. Na Musicoterapia, isso acontece quando o paciente escolhe e executa canções favoritas em consonância com sentimentos que surgem no momento vivenciado. (d) O campo ritual é caracterizado por repetições que transmitem segurança para o experimento de novas possibilidades. (e) O campo estado particular de consciência ocorre quando há receptividade a novas experiências e percepções de sons e movimentos em estado de transformação. (f) O campo processo criativo ocorre quando há interação que provoca mudanças. (g) O campo poder ocorre quando a tribo acumula energia e adquire força para explorar possibilidades e, na Musicoterapia, significa persistência adquirida por incentivo ao tocar e improvisar música. Representa motivação e autossuperação.
  • A Musicoterapia Neurológica → aplicada para disfunções cognitivas, sensoriais e motorais que estimula a percepção e a produção musical no cérebro e seus efeitos sobre as funções e os comportamentos não musicais. O autor apresenta seis técnicas desse modelo.

No capítulo 7 o autor afirma que a música facilita a organização do indivíduo com o Autismo a partir da vivência de elementos como o ritmo, a melodia e a harmonia. Ao estabelecer limites, a música auxilia a compreensão de começo, meio e fim. A maneira de trabalhar a auto-organização e os limites depende do modelo teórico aplicado. A abordagem behaviorista busca esses objetivos por meio de atividades como o uso de uma canção em diferentes velocidades, para organização do tempo ou com pausas para estabelecimento de limites. A abordagem humanista, além da busca pela auto-organização e limites, busca, também, a expressão, manifestação de criatividade e elevação da autoestima do paciente.

O autor afirma no Capítulo 8 que a integração audiovisual presente no cotidiano não é muita abordada pela Musicoterapia. Mas há estudos sobre música e neurociência. O autor cita três desses estudos e suas implicações para a Musicoterapia: (a) sinestesia, o processo sinestésico audiovisual poderá ser estimulado artificialmente não ocorrendo a percepção automática; (b) percepção de objetos por meio da escuta musical; (c) linguagem e reações emocionais a partir da percepção visual da performance musical ligada à linguagem não verbal, fundamental na Musicoterapia para o Autismo.

A Musicoterapia possibilita uma das metas pretendidas pelos terapeutas: que o nível de comunicação e interação do indivíduo com Autismo com demais pessoas ao seu redor aumente e que as atividades musicais possam contribuir para esse sucesso. O Capítulo 9 trata dessa questão. O autor discorre sobre o desenvolvimento dessas habilidades de acordo com etapas de 0 a 6 meses, de 7 a 12 meses e 13 a 14 meses quando os bebês demonstram comunicação receptiva/expressiva e exibem atenção compartilhada. A partir desses estágios o Musicoterapeuta observa em que etapa se encontra o paciente a fim de planejar experiências que possibilitem sua participação conforme suas possibilidades. A música oferece possibilidade de engajamento social e de comunicação para indivíduos com Autismo, previne enfermidades e contribui para a qualidade de vida.

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3     Sugestão de sessão de Musicoterapia para indivíduos com Autismo

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 No último capítulo o autor oferece proposta de sessão de Musicoterapia, que pode ser adaptada e ressalta que não há uma proposta que contemple todos os tipos de pacientes.

A sessão conta com 30 minutos e possui algumas etapas: (a) os recursos são organizados com o auxílio do paciente e a interação dos pais, se necessário; (b) inicio das atividades com cumprimento ou questionamento sobre o paciente e seu dia; (c) canção de entrada ou boas-vindas marcando o início da sessão, facilitando a fala, o canto, sorrisos, gestos; (d) recriação, composição e improvisação no violão ou teclado para verificar os interesses da criança; (e) atividade de composição ou de canto a fim de que a criança possa ter uma participação vocal e gestual. Parte-se de qualquer material trazido pela criança e caso ela não apresente nenhuma produção sonora, o Musicoterapeuta oferece canções facilitando sua participação. Em seguida outros objetos são utilizados como instrumentos musicais e com apoio ou acompanhamento do Musicoterapeuta, se necessário. (f) a criança escolhe, explora e toca os instrumentos. Atividade com sete passos: escolha espontânea da criança; convocação e sugestão verbal para que a criança faça sua escolha; caso não haja resposta, o Musicoterapeuta escolhe um instrumento e oferece, por duas vezes, à criança; repete-se o procedimento com outros dois instrumentos, um por vez; o terapeuta torna a tocar os instrumentos convocando a criança a acompanhá-lo; o Musicoterapeuta e a criança guardam os instrumentos. A sessão finaliza com a canção de despedida que tem por objetivo facilitar a vocalização, a fala, o canto, os sorrisos e os gestos. Expressões de despedidas como tchau ou até logo e o nome da criança devem fazer parte do texto da canção que deve ser a mesma para cada paciente.

 

 

4 Considerações finais

Gattino trata em sua obra sobre a questão da Musicoterapia aplicada ao Autismo com uma linguagem bem acessível que pode auxiliar não só o Musicoterapeuta como, também, os pais, familiares e interessados nessa terapia. O autor conclui sua obra afirmando que a avaliação em Musicoterapia e a aplicação de experiências musicais, a partir de modelos específicos para propostas de organização, comunicação e interação social, dominaram seus questionamentos possibilitando a elaboração de uma proposta audiovisual e de um protocolo de intervenção, como resultados de discussões em equipe, para aplicação prática no contexto clínico atual.

[i] Mestranda em Educação, Gestão e Difusão em Biociências, IBqM, UFRJ, Especialização em Musicoterapia e Didática. Licenciatura Plena em Educação Artística/ Música. Licenciatura Plena em Pedagogia. Professora de Educação Musical Colégio Pedro II.

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11 comentários

1 menção

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    • Bruno Verga em 25/02/2018 às 22:17
    • Responder

    Parabens. Posso compartilhar???

  1. Queria Líliam,

    Fiquei muito feliz com a sua resenha. Acredito que a sua síntese foi muito interessante, pois conseguiu reunir os pontos principais do livro. Essa é uma área que realmente necessita de muitas publicações para profissionais e para familiares.

    Parabéns pelo excelente trabalho!

    Um abraço, Gustavo Gattino!

    1. Muito obrigada pela sua participação e pelo incentivo! Que honra tê-lo aqui na nossa página! Obrigada também por suas pesquisas e estudos! Se quiser enviar algum texto ou evento para nós publicarmos, será ótimo! Abraços.

    • Arnaldo Alencar Mendes em 23/11/2015 às 13:36
    • Responder

    Parabéns Lilian Ameal, O assunto em questão, certamente servirá de base e\ou indicativo para que pessoas da área, tenham suporte e uma orientação a mais, a qual será de grande valor na recuperação de portadores de necessidades especiais.Parabéns.

    • Lindomar Machado em 21/11/2015 às 19:48
    • Responder

    Muito boa iniciativa desse site! Relatos de experiências inclusivas por meio da arte e música! Resenha esclarecedora sobre os benefícios da musicoterapia com autistas. Parabéns!

    • Lidiane da Silveira Bartole em 21/11/2015 às 19:44
    • Responder

    Parabéns
    Essa resenha é muito interessante, pois ajuda a nós professores a entender os benefícios da música no processo de inclusão, mostrando um excelente meio que ajuda na concentração e socialização de alunos com necessidades especiais.
    Os outros relatos de experiência vem acrescentar também no dia a dia dos professores que trabalham com inclusão podendo utilizar as artes como um precioso meio de incluir.

    • Olga Costa em 21/11/2015 às 13:12
    • Responder

    Parabéns pela resenha do livro! E pelos outros artigos também! Precisamos de uma sociedade mais inclusiva para todos.

    • Ana Lucia Ladeira em 21/11/2015 às 12:56
    • Responder

    Excelente artigo! Esclarecedor sobre os benefícios da musicoterapia na inclusão de pessoas com autismo.
    Parabéns pelo blog! Precisamos de mais iniciativas como essas.

  2. Excelente matéria. A informação faz muita diferença

    • Giuliana Goularte em 15/11/2015 às 19:19
    • Responder

    Como faço p comprar o livro?

    1. Boa tarde, Giuliana

      Entre no site da MEMNON e compre por lá.
      Atenciosamente, Líliam

  1. […] Lilian Ameal inicia a resenha do livro Musicoterapia e autismo: teoria e prática de autoria do Dr. Gustavo […]

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