Inclusão social: Grupo de idosos e arte contemporânea

Vera Rodrigues de Mendonça [1]

Eu trabalhei em uma instituição pública voltada para as artes onde era responsável pelas ações educativas do meu setor que organiza várias exposições, principalmente, de arte contemporânea. Em uma dessas ações no Centro do Rio de Janeiro, planejei várias visitas mediadas que pudessem atingir o mais diverso público.

Uma delas foi com um grupo de quinze idosos, entre homens e mulheres, morador na comunidade do Chapéu Mangueira na Zona Sul da cidade, que chegou até nossa exposição com uma alegria nos olhos que me contagiou. Recebi muito carinho: abraços, beijos, apertos de mão, sorrisos, olhares curiosos, perguntas sobre o prédio e as obras que iriam ver.

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Meu maior objetivo era deixar todos bem à vontade para se interessarem pelo o que eu iria falar e fazer com que aquelas pessoas se relacionassem com as obras expostas, tendo em vista serem produções contemporâneas e suscitarem, por isso, resistências quanto ao seu valor artístico. Ao nos aproximar de cada obra, eu falava sobre seu contexto e seu artista e, para meu espanto – porque, aí, a estranheza foi minha – as pessoas começaram a falar sobre o que percebiam daquilo tudo com muita naturalidade. Começamos a conversar sobre arte, sobre vida e eu relaxei porque não havia resistências, mas um debate franco sobre suas impressões e as minhas diante de nossas emoções.

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A exposição era pequena e podia ser vista em menos de uma hora. Eu destinava em torno de uma hora e meia para cada grupo visitante. Porém, aquela visita foi muito especial e durou, podemos dizer, a tarde toda. Ela me despertou valores e um conhecimento que não vem de universidades nem de livros. Aquelas pessoas traziam o conhecimento adquirido com a vida, o que na faculdade seria traduzido por um saber empírico? Não sei, mas sei que foi por ele que o grupo transpôs as resistências com a arte contemporânea e me ensinou outras percepções que ainda não havia sentido. A principal delas: achar que por ser um grupo de idosos seria mais difícil sua relação com a arte contemporânea.

Aquelas pessoas nunca tinham ido a exposições de arte, a museus ou afins, de acordo com seus relatos. O que ratifica o que penso sobre as primeiras sensações estéticas com uma obra estarem mais vinculadas às bagagens de cada fruidor do que um conhecimento enciclopédico sobre arte. Não conheciam os artistas que produziram aquelas obras nem tão pouco suas biografias, mas se encontravam diante de objetos comunicativos que criaram elos significativos com cada um daquele grupo.

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Uma senhora – sua idade, na época, era 82 anos – me disse que passou grande parte de sua vida indo e vindo diante daquele edifício e nunca teve a coragem de entrar. Achava que aquele prédio não era para ela. Ele servia a “outras pessoas mais ricas e com mais estudos”. Sua ida, naquele dia, foi pela curiosidade de conhecer o edifício que ela achava tão elegante e que eu havia realizado seu sonho. Ela tinha gostado muito da exposição, mas o prédio era o melhor de tudo.

Eu disse a ela que se tratava de um patrimônio público e que ela poderia ter entrado no prédio quando quisesse. Nós éramos servidores públicos e estávamos ali para atender a todos. Porém, sabemos que as coisas não correm de maneira tão simples. A sociedade internaliza barreiras nas pessoas que, muitas vezes, exigem grandes esforços para transpô-las. Uma dessas barreiras havia sido quebrada naquele dia ao se mostrar para aquela senhora que ela podia entrar naquele prédio que era nosso.

idoso de bengalaFiquei emocionada com a visita e ouvi maravilhosas histórias contadas pelo grupo. Uns mais e outros menos, mas todos tinham coisas a dizer. Eu me senti até um pouco envergonhada por não ter me arrumado para recebê-los. Todos pareciam ter vindo com suas melhores roupas. Eu vestia bermuda e camiseta, calçava sandálias baixas e sentia muito calor. Era verão e não há ar condicionado no edifício. Ao final, depois de mais beijos, abraços e apertos de mãos, agradeci muito pela visita e pedi desculpas pelos meus trajes. Uma outra senhora me disse baixinho que eu ainda podia me vestir assim porque era nova. Mas, que eu não fizesse isso quando fosse mais velha porque as pessoas reparam. Eu concordei e prometi que iria me cuidar melhor para envelhecer tão bonita como todos eles. Mais uma lição que levei para casa.

 

 

Vera Rodrigues de Mendonça [1]

Graduada em Educação Artística pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e mestre em Arte, Cultura e Cognição pela mesma instituição, além de especialista em Políticas Públicas pela UnB. Atuou como consultora em Artes Visuais na Fundação Getúlio Vargas − FGV Online e professora-autora no projeto FGV Ensino Médio. Foi tutora presencial do curso de Pedagogia Licenciatura do Consórcio CEDERJ/UERJ. Participou de várias comissões de seleção, entre elas: júri de artes plásticas do “Santander Talentos da Maturidade 2013” e vários editais do Centro de Artes Visuais da Fundação Nacional de Artes – Funarte. Desde 2006, é servidora pública federal com cargo de administradora cultural na Funarte e, a partir de 2014, como coordenadora e professora de Artes Visuais no Colégio Pedro II.

 

 

 

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