A inclusão no programa de educação musical da Associação Amigos do Projeto Guri.

Claudia Maradei Freixedas [1]

 

Associação Amigos do Projeto Guri (A.A.P.G.), fundada em 1997, é um programa de educação musical criado em 1995 pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Oferece cursos de canto coral, lutheria, instrumentos de cordas dedilhadas, cordas friccionadas, sopros, teclados, percussão e iniciação musical, a crianças e adolescentes entre 6 e 18 anos para quase 35 mil alunos, em cerca de  370 polos de ensino no interior e litoral do estado de São Paulo – incluindo os polo da Fundação CASA. Além do Governo de São Paulo – idealizador e mantenedor do projeto – a Amigos do Guri conta com o apoio de prefeituras, organizações sociais, empresas e pessoas físicas, para fazer acontecer o maior programa sociocultural brasileiro.

O Projeto Guri tem como missão “promover, com excelência, a educação musical e a prática coletiva de música, tendo em vista o desenvolvimento humano de gerações em formação”.

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Sendo um ensino gratuito e universal, o Projeto Guri está aberto a atender alunos com algum tipo de deficiência. Atualmente a Amigos do Guri atende mais de 250 casos nos polos do litoral e interior do estado. Em 2011, foi criada uma cartilha de Política de Inclusão da Amigos do Guri, que apresenta, entre outros tópicos, importantes estratégias de como atender melhor a esses alunos.

Desde então, a Amigos do Guri vem desenvolvendo diferentes técnicas de capacitação, seja online ou presencial, como fóruns de inclusão, orientações pedagógicas, além de um monitoramento feito em parceria com o Núcleo de Desenvolvimento Social da Amigos do Guri. A partir deste monitoramento é possível realizar intervenções tanto via sede, quanto via regionais. Em 2013, a Amigos do Guri promoveu um Seminário para seus funcionários cujo tema foi a da inclusão.

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Em 2015, cerca de 20 profissionais da Amigos do Guri, receberam uma capacitação em Musicografia em Braille. Ministrado por Fábio Bonvenuto, referência no ensino de música para crianças, jovens e adultos com deficiências, o curso introduziu aos educadores, assistentes e supervisores do Guri informações teóricas e softwares específicos, em favor da inclusão e melhor desenvolvimento de alunos com deficiência visual. Estes profissionais serão multiplicadores desta incrível criação, repassando seus conhecimentos aos demais educadores, capacitando-os a atender alunos com deficiência visual, e em como utilizar as ferramentas e técnicas que enriqueçam o aprendizado desses alunos. Nos últimos meses, oito alunos cegos totais, de diferentes polos de ensino do Guri no interior e litoral do estado de São Paulo, receberam livros didáticos em Braille, que seguem o mesmo modelo dos livros didáticos já editados anteriormente e distribuídos aos demais alunos. Além dessas ações, acontecem também atividades socioeducativas, com alunos e familiares, visando aprofundar o conhecimento das diferentes deficiências, além de buscar uma maior integração dos alunos com deficiência com a comunidade.

A Amigos do Guri mantém uma parceira com a Fundação CASA, que acontece desde 1996, em 58 polos. A Fundação CASA, Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente, tem a missão primordial de aplicar medidas socioeducativas a jovens de 12 a 18 anos, podendo-se, excepcionalmente, estender sua aplicação a jovens com até 21 anos incompletos, em todo o Estado de São Paulo. As medidas socioeducativas são medidas aplicáveis a adolescentes autores de atos infracionais e são aplicadas de acordo com o ato infracional e a idade dos adolescentes. Apesar de configurarem resposta à prática de um delito, as medidas socioeducativas apresentam um caráter predominantemente educativo e não punitivo e devem garantir: Educação – formal e profissional; Esporte; Cultura; Lazer; Proximidade da família; Respeito; Afeto; Cidadania.

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O Projeto Guri oferece oficinas de canto coral, cordas dedilhadas e percussão para adolescentes que estão em provação de liberdade nos de Centros de Internação (CI) e Centro de Internação Provisória (CIP). As atividades da Amigos do Guri, nesse contexto, tem como finalidade, não só o aprendizado musical, mas a promoção da autoestima, da criatividade, da sensibilidade musical e do desenvolvimento humano. As oficinas oferecem aos meninos e meninas outro modo de se expressar, dar vazão a sentimentos. Tocar e se apresentar para alguém ou expor obras de produção própria ressignifica o lugar no mundo, oferece aos outros (familiares, funcionários da Fundação, cidadãos no geral) a oportunidade de olhar esses meninos e meninas de outra forma (FERREIRA; FORMICOLA; NOGUCHII; RODRIGUES; SCHOEPS, 2014).

Segundo os próprios adolescentes,

as oficinas são um espaço “para você se identificar”, “passar a forma de vida que aconteceu comigo, eu posso passar para o outro em forma de desenho, numa forma de expressão de escritura e assim diversas formas de arte e cultura”. (FERREIRA; FORMICOLA; NOGUCHII; RODRIGUES; SCHOEPS, 2014).

 

De acordo com esses relatos as oficinas oferecidas pela Amigos do Projeto Guri, funcionam como uma eficaz ferramenta educacional, promovendo uma transformação de consciência, “instituindo-se como uma possibilidade de acesso à educação musical e vivências socioeducativas com foco na garantia de direitos e valores essenciais para o desenvolvimento de adolescentes” (FERREIRA; FORMICOLA; NOGUCHII; RODRIGUES; SCHOEPS, 2014).

 

Bibliografia:

FERREIRA, Andrea; FORMICOLA, Fabiola; NOGUCHII. Natália Félix de C.; RODRIGUES, Francisco; SCHOEPS, Daniela. Música, arte e cultura na fundação casa: intervenção na privação de liberdade. In: Revista Brasileira Adolescência e Conflitualidade, 2014, n. 11, p. 130-138. http://www.pgsskroton.com.br/seer/index.php/adolescencia/issue/view/265

Claudia Maradei Freixedas [1] Educadora musical e flautista doce. Mestre em Música pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Especializou-se no Conservatório Real de Haia-Holanda. Pós-graduada pela Universidade Anhembi-Morumbi e graduada em música pela ECA-USP. Gerente Pedagógica do Projeto Guri, professora no curso de graduação e pós-graduação na Faculdade Integral Cantareira-SP e integrante da equipe pedagógica do Projeto Brincadeiras Musicais da Palavra Cantada. Ministra há vários anos cursos e workshops de flauta doce e de formação musical para professores em escolas e instituições ligadas à educação, além de festivais de música, como Juiz de Fora, Curitiba e Londrina. Atua como concertista atua em vários grupos como: Quarteto Fontegara, Trio Sospirare, Doce Fole e Doces Diálogos que se apresentam regularmente em diversas salas de concerto de São Paulo.