SOMOS TODOS PARTICIPANTES

SOMOS TODOS PARTICIPANTES

 

Dra Marly Chagas[1]

Pode ser que você nunca tenha parado para pensar na relação que existe entre os sons e movimentos e a manifestação da vida. Vejamos: quando somos concebidos, ainda de pouco tempo na barriga de nossa mãe – cerca de 20 dias – começa a pulsar em nós e nunca mais para, um conjunto de células que se constitui em um proto coração. No início da vida, cercados pelo líquido amniótico, o cordão umbilical pulsa, as vozes nos rodeiam, as vísceras de nossa mãe se movem, escutamos os cantos, a TV, sentimos o balanço do andar. Estamos submersos na experiência de ser gerado dentro do corpo de alguém que está vivo.

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Essa é uma experiência em que todos os seres estão incluídos. Todos ao nascermos possuímos a experiência dos sons e movimentos. Depois, é com essas sensações conhecidas, que os artistas vão produzindo obras de arte que nos afetam, emocionam. A arte transforma nossa percepção, nos lança no desconhecido ou nos traz de volta pra casa.

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A arte, do ponto de vista dos filósofos franceses Deleuze e Guattari, é tão importante para gerar conhecimentos quanto a ciência e a filosofia. Esse pensamento ressoa em nossas práticas de artistas, educadores, terapeutas, pais de crianças que precisam ser incluídas na nossa sociedade. A arte inclui. Todos somos autores quando afetados pela Arte. A sensibilidade do artista utiliza àquelas nossas conhecidas sensações para fazer de qualquer pessoa um participante. Ouvimos o som de um instrumento, uma voz, uma simples canção… “alguém cantando longe daqui…” Gostando ou não, somos afetados. O artista impregna na sua obra as suas percepções e afetos. Somos atraídos, transformados, acalentados pela arte. Ela impulsiona. Provoca riso e choro. Raiva e êxtase. Modifica o tônus de nossos músculos, reaviva a nossa memória, acalma para o sono ou impulsiona o movimento. Cria processos de produção de nós mesmos.

Perceber e receber o produto da afetação da arte em pessoas portadoras de necessidades especiais é um aprendizado técnico e uma imersão humana fascinante. Musicoterapeutas convivem cotidianamente com essa experiência. Crianças autistas podem se vincular com a vibração do som; pessoas com pouca capacidade de atenção aumentam consideravelmente o tempo de estar junto na execução de uma improvisação musical; o sofrimento psíquico se revela na lucidez de composições; o movimento se amplia ou é conquistado com o acompanhamento de ritmos e sonoridades.

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A música, os sons, os ritmos estão ao nosso alcance. Cantar para as crianças, embalar os adultos, brincar. A arte carreia uma transgressão inovadora para os que se preocupam com a inclusão. Nascemos envolvidos pelos sons, vivemos neles e a morremos na expiração, no fim dos batimentos cardíacos, na imobilidade. Enquanto vivos, na arte, somos todos participantes. Aproveitemos!

[1] Doutorado e mestrado em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social pela UFRJ. Especialista em Psico-oncologia. Graduada em Psicologia pela UFF,  em Musicoterapia pelo Conservatório Brasileiro de Música. Professora da graduação e pós-graduação do Conservatório Brasileiro de Música – Centro Universitário (CBM-CEU). É supervisora técnica musicoterapeuta do CBM-CEU nas áreas de Musicoterapia em Comunidades e Hospitais. Presidente da Associação de Musicoterapia do Rio de Janeiro, membro do Conselho Editorial e parecerista de Revista Brasileira de Musicoterapia.