Leitura de Harry Potter na máquina de ressonância magnética (fMRI)

Uma questão provocativa é a busca de entendimento sobre como se dá, cognitivamente, o processo de imersão emocional do leitor nos caminhos da leitura de uma narrativa. A princípio, pode-se pensar que começaria com o contato do leitor com a descrição apresentada pelo autor dos personagens, de tal forma que os leitores criariam um laço empático (emocional) com os personagens. Em seguida, seria a condução da ação, expondo o protagonista a uma dada situação de perigo, por influência direta ou indireta do antagonista. E por aí seguiria, em uma sequência de funções narrativas que organizariam a construção da trama, levando o leitor a experimentar estados emocionais alinhados com o comportamento do protagonista, ligando-se a este empaticamente na busca do desenrolar da estória. Bem, apesar desta ser uma das possibilidades de olhar para o tema, a partir dos estudos narratológicos, ele não é o único.

Um viés de observação dos fenômenos literários que ganha espaço em alguns centros de pesquisa norte-americanos e europeus, embora ainda engatinhe no Brasil, é a perspectiva dos estudos cognitivos de literatura, que em alguns grupos de pesquisa tem assumido a defesa de novos campos de análise do fenômeno literário, tais como os estudos culturais cognitivos (cognitive cultural studies), a neuroestética e outros. Tais abordagens deslocam o olhar do conteúdo e da forma para a experiência cognitiva da leitura e da fruição estética. Como o leitor se envolve com o texto? Como se dá a experiência da leitura literária também (mas não só) no nível biológico? Pode o prazer estético ser analisado a despeito dos aspectos corpóreos daquele que lê? É a experiência estética um fenômeno puramente cultural ou na complexidade do ser humano responde ela à uma confluência de múltiplos aspectos que também incluem o biológico? Estas e tantas outras problematizações atravessam estas novas abordagens.

Na Universidade Livre de Berlim, uma das mais prestigiadas instituições acadêmicas da Europa, os pesquisadores  Chen-Ting Hsu, Markus Conrad e Arthur Jacobs (2014) investiram esforços em investigações sobre as regiões do cérebro envolvidas na imersão à base de emoção. Uma de suas experiências envolveu  o uso de ressonância magnética funcional (fMRI) enquanto pessoas liam breves passagens de livros de Harry Potter. A cada quatro linhas lidas, registrava-se o procedimento. Os trechos selecionados estavam relacionados com situações emocionais que sugerissem nos leitores as emoções medo e momentos de neutralidade. Após cada passagem ter sido lida, eram coletadas avaliações de como os participantes se sentiram durante a leitura. Uma das condições para participar da experiência (critério de inclusão), era que os voluntários tivessem lido pelo menos um livro da série Harry Potter anteriormente. Esse critério teve por meta estabelecer um universo amostral de participantes alinhados com o contexto do mundo diegético.

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Imagem: A ativação do córtex cingulado durante a leitura de passagens de indução de medo na figura 1b, do estudo de Hsu et al. (2014).

Os pesquisadores descobriram que a sensação de imersão do leitor foi significativamente maior nas passagens do texto que induziam medo do que nas neutras, com destacada ativação do córtex cingulado no cérebro (“mid-cingulate”, na foto). Aliás, tem sido proposto que esta região estaria associada com a empatia para angústia pessoal. Foram usadas no estudo alguns trechos que evocavam a sensação de medo, entretanto, ao invés de uma rotulação das emoções, houve uma ênfase sobre as ações associadas com estas emoções. A ênfase nos aspectos basilares da ação narrativa foi entendida como um importante elemento no processo de engajamento dos leitores, pois se conecta com a hipotética função do córtex cingulado na atividade motora e não processos sensoriais.

Obviamente, a indução de medo em leitores não é o único processo pelo qual os leitores se envolvem em histórias, mas no caso específico do gênero suspense, cujo pacto de leitura demanda o clima de tensão/medo, temos nesse aspecto um importante componente para muitos de seus leitores. Portanto, para que a imersão ocorra nesse tipo de narrativa, parece que a vivência de experiências emocionais, tais como medo, seja um importante aspecto para o fechamento do pacto narrativo. Não se trata das emoções dos personagens, mas das próprias emoções do leitor, quer pelas ações imaginadas, quer pelo envolvimento com as circunstâncias vividas pelos protagonistas.

Fonte:

Hsu, C.-T., Conrad, M., & Jacobs, A. M. (2014). Fiction feelings in Harry Potter: Haemodynamic response in the mid-cingulate cortex correlates with immersive reading experience. NeuroReport, 25, 1356-1361.

Por Glaucio Aranha

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