TEA E O AMBIENTE ESCOLAR

Jaqueline Marques, Ma. Educação
Daniela Dantas, Ma. Educação[i]

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um distúrbio do desenvolvimento de origem orgânica em que a causa é de componente genético. Os cientistas identificaram a multiplicidade de alterações genéticas raras ou mutações associadas ao autismo.

Muitos estudos apontam para que a causa esteja associada a traumas intrauterinos, a fatores ambientais, a transformações genéticas e até mesmo a relação da flora intestinal, porém a ciência ainda não concluiu exatamente qual é a sua causa.

Em relação a flora intestinal, o neurologista Perlmutter (2015, pg. 137) diz que:

“Estudos legítimos de instituições de ponta estão descobrindo a conexão entre a flora intestinal e esse transtorno. As últimas pesquisas têm proporcionado respostas surpreendentes e animadoras […] Pesquisar o autismo representa estar na fronteira da medicina neurológica, sobretudo no que essa ciência tem a ver com a compreensão do microbioma […] Estamos descobrindo como um intestino saudável e funcional – e em particular a flora intestinal – se relaciona com o desenvolvimento cerebral. Estamos finalmente compreendendo como as bactérias do intestino podem contribuir para o desenvolvimento e a evolução de um transtorno cerebral como o autismo […] Uma das evidências mais convincentes da relação entre os micróbios do intestino e o autismo é o fato de que as crianças com autismo apresentam certos padrões em relação à composição da flora intestinal que não são encontrados em crianças sem autismo […] A espécie de bactéria intestinal que costuma ser encontrada em indivíduos com autismo cria compostos nocivos ao sistema imunológico e ao cérebro, que podem ativar o sistema imunológico e ampliar processos inflamatórios.”

Corroborando, assim como não há um único tipo único de autismo não há uma causa única. Geralmente, esses transtornos têm três características básicas que são: dificuldades de interação social, problemas com a comunicação verbal e não verbal e comportamentos repetitivos, em que os meninos são mais afetados pela síndrome; um em cada 42 meninos e uma em cada 189 meninas são afetados.

No início, existia uma distinção entre os tipos de autismo, classificados como síndrome de Asperger e o transtorno autista, entretanto, em 2013 todos os transtornos autistas foram unificados sobre o único diagnóstico de TEA sendo classificado como leve, moderado e severo.

No âmbito escolar, através da Lei de Inclusão, há de se priorizar o atendimento específico de forma a garantir a qualidade da educação/ensino em que o aluno possa ser assistido de forma ampla.

 Vale ressaltar que não existe um tipo de autismo, existem várias especificidades, em que, é importante analisar cada aluno com sua individualidade e necessidades.

 Com o crescente número de crianças que apresentam autismo no Brasil e no mundo urge pensar em formas mais eficazes, através de práticas e metodologias, voltadas ao atendimento desses alunos. Entende-se que a escola ainda não está suficientemente preparada para isso.

Através de nossa atuação em sala de aula como professora regente e mediadora, respectivamente, recebemos um aluno de 6 anos de idade com TEA leve, aqui chamado de Francisco, para preservar a identidade. Essa foi uma experiência significativa em que percebemos a necessidade da mediação constante para um melhor desempenho do aluno. Ele foi atendido duas vezes por semana por uma professora mediadora e nos outros dias, esteve acompanhado de um “profissional de apoio”, que colaborou para que estivesse mais atento às aulas e às tarefas propostas.

A Lei 12.764, de 27 de dezembro de 2012, que “Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista”, garante que “Em casos de comprovada necessidade, a pessoa com transtorno do espectro autista incluída nas classes comuns de ensino regular, nos termos do inciso IV do art. 2o, terá direito a acompanhante especializado” (Artigo 3º- Parágrafo único). Porém, não deixa claro que tipo de acompanhamento deverá ser garantido legalmente: professor mediador ou profissional de apoio. Esse último seria responsável por acompanhar o aluno em atividades no espaço da sala de aula e fora dela, tais como, recreio, almoço, etc.  Ou seja, dar o suporte para suas necessidades físicas e/ou de locomoção.

No entanto, constatamos o que é óbvio: a presença de um professor mediador é essencial para o desenvolvimento da criança com TEA. Por mais que o profissional de apoio seja comprometido e atento, a intervenção pedagógica realizada na mediação permite que o estudante autista alcance um melhor desempenho.

Citamos, anteriormente, as três características básicas do autismo e observamos tais características no aluno em questão. No intuito de favorecer o desenvolvimento da aprendizagem, buscamos estratégias para lidar com essas questões. No caso da interação social percebemos que, no início do ano letivo, Francisco quase não interagia com os colegas. A partir dessa percepção, começamos, professor regente e mediador, a estimular a interação através de jogos coletivos, como trilhas, jogo da memória, brincadeiras com o corpo, músicas, entre outras atividades. Aos poucos, Francisco começou a se relacionar com determinadas crianças e a se aproximar mais delas. No entanto, isso se deu de forma bem lenta. Ao final do ano letivo, Francisco já conseguia brincar e se relacionar, ainda que de forma restrita, com algumas crianças da turma. Constatamos que a presença da mediadora e da profissional de apoio foi fundamental para proporcionar essa interação.

Em relação à segunda característica, a comunicação verbal e não verbal, observamos que no caso do aluno Francisco, viabilizar a comunicação verbal, principalmente, foi objetivo de trabalho durante todo o ano. O aluno iniciou o ano letivo com pouca aproximação da professora regente e dos demais profissionais. Não solicitava permissão para ir ao banheiro, por exemplo, e pouco se comunicava com os adultos. Ao final do ano, já conseguia verbalizar suas impressões sobre situações, ainda que de forma bem simplificada. Costuma sentir a falta dos colegas ausentes; observa e fala que o colega está triste, por exemplo. É importante destacar que a parceria com a família foi fundamental para alcançarmos esses avanços significativos.

            Quanto aos movimentos repetitivos, observamos que acontecem com frequência, principalmente quando Francisco está mais cansado ou quando a turma está agitada. Nesse caso, utilizamos como estratégia a realização de algumas atividades para que a atenção dele ficasse voltada para outro foco, como montagem de quebra-cabeça, organização de letras/palavras ou dos números, atividades de contagem com material concreto, entre outras. 

            Sendo assim, constatamos que para que o autista seja realmente incluído, é necessário que a escola efetive um acompanhamento especializado, através do professor mediador e/ou profissional de apoio, e que toda a família esteja em sintonia com a equipe escolar. Além disso, é necessário um acompanhamento multidisciplinar entre a equipe escolar e os profissionais que o acompanham fora da escola, como Terapeuta Ocupacional, Fonoaudiólogo, Psicólogo, Nutricionista, entre outros.

            Só assim, através da parceria entre a família, os profissionais especializados, o professor regente e o mediador, poderemos garantir um trabalho de qualidade e avanços significativos para o aluno.

Referências

BRASIL. Lei Nº12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista; e altera o § 3o do art. 98 da Lei no 8.112, de 11 de dezembro de 1990. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12764.htm. Acesso em 20/02/2019.

PERLMUTTER, David. Amigos da mente: nutrientes e bactérias que vão curar e proteger seu cérebro. São Paulo: Paralela, 2015.

RELVAS, Marta Pires. Neurociências e transtornos de aprendizagem: as múltiplas eficiências para uma educação inclusiva. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2015.

Imagem: www.googleimagens.com


[i] Pedagoga/UFRJ; Mestra em Educação/PUC; Pós graduação em Educação de Surdos/INESExtensão em ABA (Análise do Comportamento Aplicada)/Creative Ideias/Paradigma; Professora de Yoga/ABDTY; Professora substituta do Colégio Pedro II.

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