Música, Musicoterapia e TEA

Música, Musicoterapia e TEA[1]

 

Líliam Cafiero Ameal[2]

 

Gainza, 1988; Arroyo, 2000; Santos e Louro, 2016; Suzano, 2016 atestam ser razoável utilizar a música e seus elementos para o desenvolvimento de habilidades e inclusão social entre os indivíduos; afinal a maioria das pessoas gosta de música e apresenta algum tipo de relação com ela.

“A música faz-se presente como arte, mas também como experiências de vida: hábitos, contrações, memórias, derives” afirma Craveiro de Sá (2003, p.131) e, segundo Beatriz Ilari, educadora musical e pesquisadora em psicologia cognitiva da música, “o ser humano já possui certas competências musicais no início da vida; competências que constituem, ao que tudo indica, a base de seu desenvolvimento cognitivo-musical” (ILARI, 2006, p. 18). Em 2013, a mesma autora nos fala que nossas experiências musicais estão particularmente ligadas à nossa inteligência musical (ILARI, 2013).

Howard Gardner, em 1983, nos apresenta pela primeira vez o conceito de inteligência musical quando publicou seu livro intitulado Frames of the mind: the Theory of multiple Intelligences, resultado de seus estudos sobre o potencial humano (GARDNER, 1995). E, em 1995, foi lançado no Brasil “Inteligências Múltiplas: a teoria na prática”, versão de outro livro do mesmo autor, de 1993, Multiple Intelligences – the teory in Practice.  Nesse livro, sobre as inteligências múltiplas, o autor apresenta alguns tipos de inteligência, quais sejam: linguística ou verbal, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal e intrapessoal (GARDNER, 1995, p.15.). Logo após esse estudo, o autor acrescentou mais duas inteligências: a naturalista (GARDNER[3], 2000 apud NICOLLIER; VELASCO, 2008, p. 25) e a existencialista (GÁSPARI e SCHWARTS, 2002, apud SANTOS e LOURO, 2016, p. 200).

Com relação à inteligência musical, Gardner (1995) infere que esta pode manifestar-se como a capacidade de reconhecer ritmos e sons antes mesmo de treinamento musical; como a habilidade de tocar um instrumento musical. Além disso, o autor nos mostra que “certas partes do cérebro desempenham papéis importantes na percepção e produção da música (…); evidências de várias culturas apoiam a noção de que a música é uma faculdade universal” (GARDNER, 1995, p 23). Nesse sentido, para o neurologista britânico Oliver Sacks (2007), a música é tão importante para nós quanto à linguagem e entender os efeitos e a relação da música com o cérebro é fundamental para que possamos compreender o homem. Em consonância com essas ideias, Levitin (2010) afirma que o estímulo musical atinge várias áreas do cérebro e subsistemas neurais. Além disso, ouvir e fazer música requer uma intensa atividade cerebral, conforme demonstrado na Figura 2.

A importância da música na vida das pessoas pode ser constatada pelas observações concluídas de Sacks (2007) sobre as imagens mentais musicais voluntárias que todo ser humano possui.

Há numerosos indícios de que os humanos possuem, tanto quanto o instinto da linguagem, um instinto musical, independentemente do modo como ele tenha evoluído. Nós, humanos, somos uma espécie musical além de linguística. Isso assume muitas formas. (…). Construímos a música na mente usando muitas partes do cérebro (SACKS, 2007, p.10).

 

IMAGEM ARTIGO

Figura 2 – Áreas encefálicas relacionadas à percepção musical. Esquerda, visão lateral do encéfalo, ilustrando o cerebelo e os lobos frontal, parietal, temporal e occipital. Direita, visão medial (interna) ilustrando as regiões corticais, diencefálicas, do tronco encefálico e cerebelo. Em ambas ilustrações podemos observar algumas das áreas estimuladas pela música ao nível cortical (córtices motor, sensorial somestésico, auditivo, pré-frontal e visual), subcortical (núcleo acumbente, hipocampo e amígdala), corpo caloso  e cerebelo (adaptado de LEVITIN, 2010, pp.306-307).

Consistentemente, segundo Muszkat (2012, p.68) “a música não apenas é processada no cérebro, mas afeta seu funcionamento”; “a experiência musical modifica estruturalmente o cérebro. O ensino de música pode ser uma ferramenta muito eficaz para estimular o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças” (MUSZKAT, 2012, p.68). Apesar dos estudos ora citados sobre a relevância da música na vida das pessoas, e da utilização de atividades musicais na educação e na musicoterapia estarem evoluindo de acordo com fatores políticos, sociais, culturais e legais, como já destacamos, ainda hoje observamos questões a serem resolvidas, principalmente quanto ao uso, funções e objetivos dessas atividades em nossa prática educacional e terapêutica.

Do ponto de vista etnomusicólogo, Merrian (1964, apud FREIRE, 2010), mostra que a música tem múltiplos usos e funções e que essas funções devem determinar o seu uso.  Não temos por objetivo analisar essas funções sociais da música, mas destacar a importância da expressão emocional, por meio da música, principalmente num trabalho com pessoas com TEA ou com outros distúrbios motores, cognitivos e sensoriais que dificultam sua expressão, comunicação e interação com outros indivíduos.

A par disso e de forma consistente, Gattino (2015, p. 73) afirma: “crianças com autismo devem ser incentivadas musicalmente desde cedo, pois, assim, as habilidades de comunicação e interação social poderão ser estabelecidas em um nível mais próximo da normalidade”. O autor prossegue afirmando que evidências apontam o TEA como um transtorno de causa multifatorial genética e ambiental e que o manejo terapêutico é obtido por vários tratamentos sendo que a musicoterapia propõe melhorar a qualidade de vida, aumentando a autonomia e melhorando a convivência social do indivíduo com TEA. O autor afirma, ainda, que a música facilita a organização do indivíduo com o TEA a partir da vivência de elementos como o ritmo, a melodia e a harmonia.  Ao estabelecer limites, a música auxilia a compreensão de começo, meio e fim. A maneira de trabalhar a auto-organização e os limites depende do modelo teórico aplicado. Para Gattino (2015), a Musicoterapia possibilita uma das metas pretendidas pelos terapeutas: que o nível de comunicação e interação do indivíduo com TEA com demais pessoas ao seu redor aumente e que as atividades musicais possam contribuir para esse sucesso.

Dentre várias experiências que utilizam a musicoterapia como proposta de intervenção junto aos indivíduos com TEA, Sampaio e colaboradores (2015) destacam de que forma a Federação Mundial de Musicoterapia trata essa questão:

 

Musicoterapia é o uso profissional da música e de seus elementos como uma intervenção em ambientes médicos, educacionais e cotidianos com indivíduos, grupos, famílias ou comunidades que busca otimizar sua qualidade de vida e melhorar sua saúde e bem-estar físico, social, comunicacional, emocional, intelectual e espiritual. A pesquisa, a prática profissional, o ensino e o treinamento clínico em musicoterapia são baseados em padrões profissionais de acordo com contextos culturais, sociais e políticos (WORLD FEDERATION OF MUSIC THERAPY, 2011, apud SAMPAIO et al., 2015, p.148).

 

Nesse sentido, encontramos dois trabalhos mais antigos que trataram da musicoterapia e o TEA e que consideramos importante relatar. O primeiro deles é de Leomara Craveiro de Sá (1998, p.78), que assim afirma: “quando o elemento sonoro rítmico-musical é introduzido, observa-se que os comportamentos estereotipados, bem como os atos auto agressivos diminuem ou são totalmente dissipados”. O segundo trabalho, também de 1998, é de André Brandalise que, em experiência de seis anos com adolescentes com TEA, a canção era utilizada como base de interação e que, dessa forma, esses pacientes eram “capazes de reorganizar suas condições através do preenchimento dos pontos de indeterminação oferecidos pela canção” (…), e nos mostra que “a canção, através de sua rica estrutura, seja responsável pelas modificações das condições deste indivíduo” (BRANDALISE, 1998, p. 45 – 46)”.

Voltando às pesquisas mais atuais sobre TEA e a música, Bhatara e colaboradores (2013, p. 101) mostram que “indivíduos com transtorno do espectro autístico melhoraram suas habilidades de processar a altura do som. Comparados com crianças com desenvolvimento típico, crianças com TEA podem diferenciar notas de acordes musicais de forma mais precisa”. A partir do que se conhece sobre os benefícios da música e da musicoterapia junto aos indivíduos com TEA é importante que o educador musical apresente atividades relevantes no trabalho que executa.

Como pudemos constatar,  a música e a musicoterapia provocam uma série de benefícios para o indivíduo com TEA. Entretanto, podemos destacar três estudos importantes que alertam para o fato de que as crianças com TEA não devem ouvir músicas desacompanhadas. Benenzon (1985) e Silva Junior e Craveiro de Sá (2007) afirmam que deixar crianças com TEA ouvindo músicas sozinhas é correr o risco de um resultado iatrogênico; ou seja: essa atividade desacompanhada pode fazer mal ao paciente. Nessa mesma direção Barcellos (2004, p. 124) nos adverte que ao usar aparelhagens eletroacústicas, como o teclado, por exemplo, “pode ter um efeito iatrogênico” (fazer mal), para os indivíduos com TEA, “se o musicoterapeuta não utilizá-lo como ponto de partida para introduzi-lo como pessoa”, ou seja, usar o teclado como um instrumento de interação e comunicação musical entre os envolvidos na atividade.  Depreende-se a partir dessas experiências ora relatadas ser necessária a capacitação do profissional que irá utilizar atividades musicais com indivíduo com TEA.

 

 

REFERÊNCIAS

Imagem: https://pt.dreamstime.com/ilustra%C3%A7%C3%A3o-stock-m%C3%BAsica-e-autismo-image70667857

ARROYO, Margarete. Um olhar antropológico sobre práticas de ensino e aprendizagem musical. Revista da Abem n. 5, set, 2000, p. 13-20.

BARCELLOS, Lia Rejane Mendes. Musicoterapia: Alguns Escritos.  Rio de Janeiro: Enelivros, 2004.

BENENZON, Rolando O. Manual de Musicoterapia. Rio de Janeiro: Enelivros, 1985.

 

BHATARA, Anjali; QUINTIN, Eve-Marie; FOMBONNE, Eric; LEVITIN, Daniel. Early Sensitivity to Sound and Musical Preferences and Enjoyment in Adolescents With Autism Spectrum Disorders. Psychomusicology: Music, Mind, and Brain, n.23, v. 2, 2013, p.100-108. Disponível em <http://daniellevitin.com/levitinlab/articles/2013-Bhatara_Psychomusicology.pdf>. Acesso em: 12 dez. 2016.

BRANDALISE, André. Approach “Brandalise” de Musicoterapia (Carta de Canções). Revista Brasileira de Musicoterapia, Ano III, n. 4, Rio de Janeiro, 1998.

CRAVEIRO DE SÁ, Leomara.  A Musicoterapia na neuropsiquiatria infantil: os estados autísticos. In: IX SIMPÓSIO BRASILEIRO DE MUSICOTERAPIA. Anais… 1998, p. 70-80.  Rio de Janeiro. Disponível em: <http://www.revistademusicoterapia.mus.br/wp-content/uploads/2016/11/8-A-Musicoterapia-na-Neuropsiquiatria-Infantil-os-Estados-Aut%C3%ADsticos.pdf>. Acesso em: 20 set. 2016.

CRAVEIRO DE SÁ, Leomara. A Teia do Tempo e o Autista: música e musicoterapia. Goiânia: Ed. UFG, 2003.

FREIRE, Vanda Bellard. (org.) Horizontes da pesquisa em música. 7 Letras. Rio de Janeiro, 2010.

GAINZA, Violeta Hemsy de. Estudos de psicopedagogia musical. Tradução de Beatriz A. Cannabrava. 2ª. ed. São Paulo: Summus, 1988. (Coleção novas buscas em educação musical; v. 31).

GARDNER, Howard. Inteligências Múltiplas: a teoria na prática. Tradução de Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

GATTINO, Gustavo Schulz. Musicoterapia e autismo: teoria e prática. São Paulo: Memon, 2015.

ILARI, Beatriz Senoi. Apresentação. In: ILARI, Beatriz Senoi (Org.) Em busca da mente musical: ensaios sobre os processos cognitivos em música – da percepção à produção. Curitiba: Editora da UFPR, 2006, p. 11-18.

ILARI, Beatriz. Música na infância e na adolescência: um livro para pais, professores e aficionados. Curitiba: InterSaberes, 2013. (Série Educação Musical).

LABOSSIÈRE, Marília. Interpretação musical: a dimensão recriadora da “comunicação” poética. São Paulo: Annablume, 2007. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=9K_Iet9KyZMC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false>. Acesso em: 10 ago. 2016.

LEVITIN, Daniel J. A música no seu cérebro. A ciência de uma obsessão humana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

MUSZKAT, Mauro. Música, neurociências e desenvolvimento humano. In: JORDÃO, G.; ALLUCCI, R. R.; MOLINA, S.; TERAHATA, A. M. (Coord.) A música na escola. São Paulo: Allucci & Associados Comunicações, 2012, p. 67-69.

SACKS, Oliver. Alucinações musicais. Relatos sobre a música e o cérebro. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras. 2007.

SAMPAIO, Renato Teixeira; LOUREIRO, Cybelle Maria Veiga; GOMES, Cristiano Mauro Assis. A Musicoterapia e o Transtorno do Espectro do Autismo: uma abordagem informada pelas neurociências para a prática clínica.  Per Musi. Belo Horizonte, n.32, 2015, p.137-170. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/pm/n32/1517-7599-pm-32-0137.pdf>. Acesso em: 4 jun. 2016.

SANTOS, Edinaldo; LOURO, Viviane. Inteligência, música e inclusão. In: LOURO, Viviane. (org.) Música e inclusão: múltiplos olhares. São Paulo: Editora Som, 2016, p.197-208.

SILVA JÚNIOR, José Davison da, CRAVEIRO DE SÁ, Leomara. Musicoterapia e Bioética: Um estudo da Música como elemento iatrogênico. 2007. Disponível em <http://www.anppom.com.br/anais/anaiscongresso_anppom_2007/musicoterapia/musicoterap_JDSilvaJunior_LCSa.pdf>.    Acesso em: 10 jan.2016. 

SUZANO, Cátia. Diálogos entre educação musical e musicoterapia. In: LOURO, Viviane. (org.) Música e inclusão: múltiplos olhares. São Paulo: Editora Som, 2016, p. 81-98.

 

 

 

 

[1] TEA: Transtorno do Espectro Autista

 

[2] Mestre em Educação, Gestão e Difusão em Biociência, IBqM, UFRJ. Especialista em Musicoterapia. Professora de Educação Musical do Colégio Pedro II. liliamameal@gmail.com.br

 

[3] GARDNER, Howard. Inteligência. Um conceito reformulado: O criador das Inteligências Múltiplas explica e expande suas ideias com enfoque no séc. XXI. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

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