Incluir o Singular

Dra Marly Chagas[i]

 

A perspectiva filosófica de Deleuze e Guattari mostra uma interessante abordagem sobre a construção de subjetividades. Para esses autores, nós consumimos subjetividades, que chegam ao indivíduo através da família, escola, igreja, meios de comunicação. Esses materiais, afetos, impressões, contatos são consumidos pelo indivíduo que oscila entre modos coletivos de subjetivação e modos singulares de subjetivação. Ninguém é absolutamente construído de maneira totalmente individual, ninguém é construído de maneira totalmente coletiva.

No modo de subjetivação contemporânea, podemos verificar esse funcionamento e acompanhar evidências desse modo de realizarmos agenciamentos coletivos. Dando foco à música, é curioso como hoje, por exemplo, privilegiamos o ritmo em detrimento da melodia. Nas festas de aniversário e nos campos
de futebol, o parabéns e o Hino Nacional são mais falados – ritmo – do que cantados – música. No entanto, nos interessa aqui a ênfase em uma construção e expressão do singular.  Quando na nossa produção e na produção do outro podemos produzir modos de expressão subjetivas singulares? Guattari (1988) propõe que uma das experiências da singularidade está no gaguejar, no balbuciar.  Somos singulares quando gaguejamos. O gaguejar como a experiência que inclui o conhecimento da língua, a própria respiração, emoção e corpo da pessoa que interferem nessa comunicação e impõem o próprio modo singular. Balbuciar, quando empregamos um pianíssimo ao escolhermos o como e com quem falamos.

A música, particularmente a Musicoterapia, com sua característica de produtora de afetos e perceptos, mesmo apresentada massificada no modo de subjetivação capitalista, oferece a chance do singular. A oportunidade de fazer “a língua gaguejar,(…) ou balbuciar, o que não é a mesma coisa” (DELEUZE, 2001). O tambor em minha mão espera ser tocado com o pulso que eu mesma impuser. Se toco em grupo, o meu
som ressoa no som de outras pessoas. Se danço, a música que escuto se expressa junto a minha própria graciosidade ou falta de jeito. Se canto, desafino, engasgo, troco as letras das canções, brinco com minhas sonoridades. Gaguejo, balbucio. Constroem-se possibilidades singulares de produção de si.

Nós, educadores, terapeutas e familiares, na perspectiva da inclusão, precisamos compreender o gaguejar e o balbucio. O som alto ou sussurrado, a melodia desafinada, as palavras reinventadas. Aprender a suportar e admirar essa expressão singular. Nossos processos de subjetivação muitas vezes impuseram o silêncio, o ficar sentado, o cantar e tocar afinados e performáticos, a vergonha de nos apresentarmos em público. A
lida com a inclusão , que se mostra cada vez mais com o lidar com a diversidade, deveria incluir também a oportunidade de nós mesmos nos manifestamos singularmente: a pesquisar a extensão de nossa voz, o pulso do momento, a ousadia da performance desconhecida. Seria uma ótima maneira de produzirmos seres com vivências singulares para apreciar novas nuances da expressão de si e da existência do outro.

Referencias

DELEUZE, G , O Abecedário de Gilles Deleuze entrevista a Claire Parnet, Paris:
Editions Montparnasse, 1997. Vídeo. Editado no Brasil pelo Ministério de Educação,
“TV Escola”, série Ensino Fundamental, 2001 disponível em
http://desobediente.multiply.com/journal/item/6 . Acesso em novembro de 2006

Imagem: https://jornal4cantos.com.br/melodia-por-lorena-carla-furlan/

[i] Psicóloga (UFF) e Musicoterapeuta pelo Conservatório Brasileiro de Música, Doutora e Mestre em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social (UFRJ), presidente da Associação Brasileira de Musicoterapia do Rio de Janeiro, membro do Conselho Editorial da Revista Brasileira de Musicoterapia.

 

Link permanente para este artigo: http://blog.cienciasecognicao.org/?p=1265

Deixe uma resposta

Seu e-mail não será publicado.