Cognição + Emoção = Comportamento

Raquel Moreira[i]

Sabe aquela capacidade de planejar e programar as coisas da vida? Aquela disciplina que precisamos ter para realizar, até mesmo, as coisas mais simples do dia a dia? Sabe aquele controle emocional que precisamos em determinados momentos? Ou a flexibilidade em mudarmos de opinião, escolhermos outras coisas e/ou olharmos de outra forma para uma determinada situação? Muitas destas habilidades da vida diária dependem de lembrar e de atuar intencionalmente (KANDEL et al, 2014).

Estas habilidades e capacidades dependem do funcionamento executivo.  De acordo com Ribeiro et al (2017), as funções executivas são coordenadoras do comportamento tendo função de analisar os processos e sendo responsáveis pela tomada de decisão em novas situações em que é exigida adaptação e flexibilidade do comportamento, onde a organização dinâmica do sistema psicofisiológico sofre grande interferência.

As funções executivas são um conjunto de habilidades que possibilitam o direcionamento de comportamentos a objetivos, mediante a avaliação de sua adequação e eficiência em relação ao objetivo pretendido, de modo a eleger as estratégias mais eficientes, resolvendo problemas imediatos e/ou de médio e longo prazo. (MALLOY-DINIZ et al, 2008).  As funções executivas se relacionam com processo de controle, unindo físico e cognitivo controlando através do autocontrole, autorregulação e flexibilidade mental.

Dentre esses processos, podemos citar o raciocínio, a abstração e o comportamento social, evidenciando uma inter-relação nos aspectos que fazem parte das atividades da vida diária, das ações e das relações.  O controle executivo, portanto, será o responsável pela coordenação destes processos cognitivos, orientando e gerenciando funções cognitivas, emocionais e comportamentais  (GODOY et al, 2010; RAMOS et al, 2017; HAMDAN, PEREIRA, 2009).

Dentro dessas habilidades, podemos citar: planejamento, organização, atenção, controle inibitório, análise, síntese, memória de trabalho (verbal e não-verbal), controle da emoção, flexibilidade cognitiva, regulação comportamental, integração e manipulação das informações relevantes, dentre outros (DIAS et al, 2015; GODOY et al, 2010).

Macroscopicamente, as habilidades das funções executivas estão relacionadas aos lobos frontais (direito e esquerdo) do cérebro, que operam por meio de redes neurais interligadas e sobrepostas, distribuídas no córtex associativo pré-frontal. O córtex pré-frontal estabelece conexões reciprocas com praticamente todo o encéfalo.  Desta forma, possui grandes possibilidades de coordenar e controlar as funções mentais e o comportamento. Tais redes alimentam o ciclo percepção-ação, constituindo assim, as unidades básicas do processamento executivo.  As lesões pré-frontais cursam com mudanças emocionais e cognitivas como insensibilidade, pouca profundidade emocional e indiferença, além de agirem em desconformidade com as regras sociais. (KANDEL et al, 2014; LENT, 2010).

A maturação dos lobos frontais envolve um número de processos dinâmicos que são controlados pelo código genético em resposta aos estímulos ambientais. Portanto, o estímulo que os responsáveis dão às suas crianças, a disciplina educacional, o nível sócio-econômico dentre outros, podem promover um grande impacto durante o período maturacional das funções executivas (STELZER et al, 2011).

De acordo com Hamdan & Pereira (2009), as funções executivas atingem sua potencialidade máxima no início da vida adulta e durante o processo de envelhecimento, as funções executivas sofrem declínio. Desta forma, durante o desenvolvimento, a criança é capaz de aprimorar suas habilidades das funções executivas, quanto mais precocemente o estímulo for dado, maior a possibilidade de desenvolver de forma eficaz as funções executivas.

Nesta perspectiva, as funções executivas funcionam como um sistema integrado, unindo cognição e emoção, regulando, controlando e coordenando ações e comportamentos a partir das funções neuropsicológicas básicas, em busca sempre do objetivo e da meta traçada (DONADON GERMANO et al, 2017).

Desta forma, ao aprimorar as funções executivas, o indivíduo possuirá maior controle de resposta aos estímulos do ambiente, favorecendo as suas atividades da vida diária e potencializando seu funcionamento nas suas relações intra e interpessoais.

REFERÊNCIAS

DIAS, N. M.; Gomes, C. M. A.; Reppold, C. T.; Fioravanti-Bastos, A. C. M.; Pires, E. U.; Carreiro, L. R. R.; Seabra, A. G. Investigação da estrutura e composição das funções executivas: análise de modelos teóricos. Psicologia: teoria e prática, v. 17, n. 2, p. 140-152, 2015.

DONADON GERMANO, G.; BASTOS BRITO, L.; CAPELLINI, S. A. Opinião de pais e de professores de escolares com transtornos de aprendizagem quanto às habilidades de funções executivas. Revista CEFAC, v. 19, n. 5, 2017.

GODOY, S.; Dias, N. M.; Trevisan, B. T.; Menezes, A.; Seabra, A. G. Concepções teóricas acerca das funções executivas e das altas habilidades. Cadernos de pós-graduação em distúrbios do desenvolvimento, v. 10, n. 1, 2018.

HAMDAN, A. C.; PEREIRA, A. P. de A. Avaliação neuropsicológica das funções executivas: considerações metodológicas. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 22, n. 3, 2009.

KANDEL, E.; SCHWARTZ, J.; JESSELL, T.; SIEGELBAUM, S.; HUDSPETH, A. J. Princípios de Neurociências. 5.ed. Porto Alegre: AMGH Editora, 2014.

LENT, R. Cem Bilhões de Neurônios: conceitos fundamentais em neurociência. 2.ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2010.

MALLOY-DINIZ, L. F.; PAULA, J. J. D.; SEDó, M.; FUENTES, D.; LEITE, W. B. Neuropsicologia das funções executivas e da atenção. In: Neuropsicologia-Teoria e Prática. 2ed. Artmed, 2014. p. 115-138.

RAMOS, D. K.; Rocha, N. L. D.; Rodrigues, K. J. R.; Roisenberg, B. B. O uso de jogos cognitivos no contexto escolar: contribuições ás funções executivas. Psicologia Escolar e Educacional, v. 21, n. 2, p. 265-275, 2017.

RIBEIRO, A.; Calado, C.; Cerveira, P.; Oliveira, C. Personalidade e Funções Executivas nos estudantes do Ensino Superior. Interacções, v. 12, n. 42, 2017.

STELZER, F.; Cervigni, M.; Martino, P. Desarrollo de las funciones ejecutivas en niños preescolares: una revisión de algunos de sus factores moduladores. Liberabit, 17 (1), 93-100, 2011.

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[i]Professora de Educação Física, formada em Licenciatura Plena pela UFRJ; pós-graduanda em Transtorno do Espectro Autista pela CBIofMiami; trabalha com desenvolvimento infantil no Espaço Brinque Cria.

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