Reflexões a partir da prática na Educação de Jovens e Adultos: desafios

Jaqueline Marques Tavares de Oliveira [i]

 A Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948,  já afirmava que “toda pessoa tem direito à educação”. Porém, até hoje uma parcela da população brasileira ainda não tem esse direito garantido.

O artigo 208 da Constituição Federal estabelece o dever do Estado com o ensino fundamental “obrigatório e gratuito, inclusive para os que não tiveram acesso na idade própria.” No entanto, as políticas públicas nesse segmento de ensino ainda deixam a desejar, pelo fato de o governo não dar prioridade para o mesmo. Sendo assim, é preciso estarmos atentos às necessidades específicas desse público.

Para compreender o sentido do trabalho realizado na EJA é importante considerar  a sociedade em que vivemos, onde a maioria da população tem o seu direito negado, à educação, à saúde, à moradia, ao lazer, ao trabalho. Nesse contexto, os estudantes da EJA são, em sua maioria, trabalhadores que não tiveram a oportunidade de estudar, por diversos motivos, e que hoje lutam para conseguir realizar o que não conseguiram na “idade própria”.

Como professora de uma escola exclusiva de EJA na rede pública de ensino do RJ, com aulas diurnas e noturnas, localizada em um território onde acontecem muitos conflitos, pude observar a luta diária dos estudantes para permanecerem na escola. E muito esforço da equipe escolar para mantê-los focados nos estudos. Dentre muitas questões, destaco: violência, desemprego, doença, falta de estímulos e baixa autoestima. Sendo assim, o primeiro grande desafio é: manter os estudantes de EJA na escola, diminuindo a evasão.

Observo no dia a dia escolar, a gratidão que a maioria dos educandos têm para com os professores, agradecendo as aulas, como se estivéssemos fazendo “um favor”. Mas compreendo que, para eles, cada dia é uma etapa vencida no sonho de concluir seus estudos. É papel do educador discutir essa questão com o grupo de estudantes, na busca de uma compreensão mais ampla desse “favor”, que na verdade a educação é direito de todos e dever do Estado. Sendo assim, educar não é só pensar em conteúdos mas sim articular os mesmos com a vida:

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquela. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto. (FREIRE, 1988, p. 32).” Com essa citação de Freire, destaco o segundo desafio da EJA: relacionar os conteúdos com a vida e o mundo do trabalho.

Outro ponto que considero desafiador é o grande número de adolescentes e jovens que temos recebido na EJA, com 15 e 16 anos. A maioria com defasagem na aprendizagem e com um histórico de fracasso escolar, com muitas reprovações, o que resulta em baixa autoestima. Como trabalhar com esse público? Que metodologia utilizar? Considero fundamental pensar estratégias, ou até mesmo programas específicos para esse público, a fim de possibilitar que esses estudantes realmente se interessem pela escola, participem mais das aulas e aprendam.

O trabalho do professor em sala de aula é organizado a partir das Orientações Curriculares, definidas pela SME. Acredito que na elaboração dessas orientações, parte-se do princípio de que os estudantes de PEJA II (nível equivalente ao 2º segmento do ensino fundamental) já dominam a leitura e a escrita, no entanto, a prática nos mostra que não é bem assim que acontece. Muitos ainda estão em processo de desenvolvimento da leitura e da escrita e ainda precisam de um trabalho mais focado na leitura e interpretação de textos, além de muitas atividades de produção textual. Entretanto, a maior parte dos professores não está preparada para realizar tal trabalho, seja de língua portuguesa ou de outras disciplinas. Acredito ser esse o maior desafio que precisamos enfrentar  na EJA: buscar estratégias de trabalho diferenciadas, coletivas, visando o desenvolvimento da leitura e da escrita de nossos estudantes.

Gostaria de sinalizar a necessidade de investir mais na leitura de textos literários na EJA. Não contamos em todas as unidades escolares com um professor de sala de leitura, que seria a pessoa ideal para iniciar e coordenar esse trabalho, porém, podemos pensar possibilidades de inserir rodas de leitura de textos curtos, de autores consagrados, para começar esse trabalho de “letramento literário”. Criar um projeto de leitura, com a participação dos professores de todas as áreas, que seriam os mediadores dessas leituras, com um bate-papo sobre o texto após cada momento de leitura.

“O letramento não está restrito ao sistema escolar – já que, em uma sociedade grafocêntrica, muitas são as situações em que o indivíduo se envolve em eventos de letramento -, porém, cabe, fundamentalmente, à escola realizar essa tarefa. Esta também não deveria ser responsabilidade apenas dos professores de língua portuguesa, mas de todos os educadores, pois são habilidades indispensáveis para a formação dos alunos(GUEDES e SOUZA, 2006).”

Para concluir, afirmo que os quatro desafios aqui brevemente discutidos são apenas parte da complexidade que o trabalho com a EJA demanda. Para alguns desses desafios, o professor, junto à equipe pedagógica, poderá atuar para modificar o quadro atual. No entanto, cabe dizer que, muitas vezes, a ação pedagógica é limitada, pois esbarra em questões estruturais do sistema, e somente a implantação de políticas públicas, discutidas coletivamente, poderá trazer resultados satisfatórios.

Referências

FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. 22 ed. São Paulo – SP: Cortez, 1988.

GUEDES, Paulo Coimbra; SOUZA, Jane Mari de.  Introdução: leitura e escrita são tarefas da escola e não só do professor de português.  In: NEVES, Iara Conceição Bitencourt et al. (Orgs.). Ler e escrever: compromisso de todas as áreas.  Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2006. p.15-20.

PAIVA, Jane. Literatura e neoleitores jovens e adultos – encontro possíveis no currículo? In: ___ et al. (Orgs.). Literatura e letramento: espaços, suportes e interfaces. O jogo do livro. 1 ed., 2 reimp.  Belo Horizonte: Autêntica/CEALE/FaE/UFMG, 2007.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 2 ed. Belo Horizonte

Imagem: https://hechingerreport.org/a-high-school-where-teens-behave-like-adults/

[i] Mestre Educação Profissional em Saúde pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio – Fiocruz. Graduada em Letras Português/Literaturas – UERJ.

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