Foi uma clara opção por ampliar o alcance da descoberta científica que levou a bióloga Lúcia Lohmann, em 2016, a convidar profissionais com novos olhares para integrar uma expedição à Amazônia. Enquanto ela e sua equipe percorriam os rios Negro e Branco coletando plantas para investigar a história evolutiva das espécies, a artista plástica portuguesa Gabriela Albergaria, o cineasta Gustavo Almeida e o fotógrafo Léo Ramos Chaves, integrante da equipe de Pesquisa FAPESP, faziam seus registros. Depois disso, outro encontro fortuito – com o filósofo Cauê Alves, curador geral do Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE), de São Paulo – culminou na exposição inaugurada em 12 de maio, com curadoria de ambos. Amazônia: os novos viajantes, fica em cartaz até 29 de julho e traça um caminho entre os exploradores do século XIX e as viagens atuais. Também traz de volta a vocação inicial de ser um museu dedicado à ecologia, em paralelo à arte.

Amazônia: os novos viajantes
Terça a domingo, 10h às 18h, até 29 de julho
Rua Alemanha, 221
São Paulo

A distância entre os livros repletos de ilustrações deslumbrantes dos naturalistas antigos e os artigos científicos do grupo de Lúcia, professora no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), parece infinita. Mas viajantes como os alemães Karl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) e Johann Baptist von Spix (1781-1826), por exemplo, estabeleceram as bases para muita pesquisa posterior com um extenso levantamento de espécies de plantas e a elaboração de mapas, entre outras contribuições. “Hoje precisamos de waze para ir até a esquina”, brinca Alves. “Mas temos na exposição um mapa da Amazônia feito por Martius e Spix, sem recursos tecnológicos, que é muito semelhante ao que se conhece hoje.”

Color chart from Amazonia (2018), de Gabriela AlbergariaImagem: Léo Ramos Chaves

Lúcia e Alves reuniram um diverso acervo artístico contemporâneo sobre a Amazônia que vai desde meados do século XX até obras feitas especialmente para a mostra, como os troncos queimados sobre areia vermelha do artista plástico Fernando Limberger. Ao longo do tempo, sementes escondidas na areia germinam e emergem as folhas verdíssimas do capim braquiária, especialista em recolonizar áreas devastadas. “Já a estufa de Alberto Baraya com plantas de plástico nos lembra que grande parte do que preservamos se torna artificial”, comenta a cocuradora e bióloga. Para ela, causa um desconforto essencial.

Também há lugar para fotografias de vários momentos e temas, para esculturas de artistas consagrados como Frans Krajberg (1921-2017) e Maria Martins (1894-1973). Gabriela Albergaria, que participou da expedição, participa com duas obras. Uma delas é uma paleta de cores que ela recolheu acompanhando o trabalho de campo e buscando adaptar o olhar à mata cerrada. “A ideia era encontrar as espécies de trepadeiras que se encontravam nas copas das árvores. Por isso se fez a viagem durante as cheias dos rios Negro e Branco”, conta, demonstrando uma atenção aos aspectos e processos científicos que alimentaram seu trabalho. “As saídas eram tudo menos contemplativas, e no início eu não entendia como distinguir uma planta de outra no meio daquela amálgama de folhas e plantas verdes; no final já conseguia distinguir algumas.”

Fonte:  http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/06/08/artista-na-expedicao-biologo-no-museu/