set 01 2017

Cérebro em quadrinhos

POR RAMON VITRAL

Fonte: Galileu (http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2014/07/cerebro-em-quadrinhos.html)

Ambos possuem pós-doutorado na área de neurociência e são pesquisadores conceituados pelas Universidades de Londres e Yale. Mas, na sua última obra, a croata Hana Ros e o italiano Matteo Farinella trocaram a tradicional “introdução, metodologia e conclusão” dos trabalhos acadêmicos por ilustrações sobre “florestas de neurônios e castelos da ilusão”. O resultado é Neurocomic, história em quadrinhos lançada na Inglaterra no final de 2013 (ainda não está previsto lançamento no Brasil). A ideia é explicar de maneira acessível princípios básicos do funcionamento do cérebro. GALILEU conversou com os autores (ambos trabalharam no roteiro e as ilustrações são de Farinella), que falaram sobre a relação entre a formação da nossa memória e a linguagem dos quadrinhos.

P: Qual a origem do livro?
Matteo Farinella:
Eu sempre desenhei, mesmo depois que decidi trabalhar com ciência. Particularmente, gosto dos quadrinhos por serem tão acessíveis e ao mesmo tempo tão poderosos em expressar ideias complexas. Quando conheci a Hana, logo começamos a falar em um quadrinho sobre o cérebro.
Hana Ros: Eu sou fascinada por arte, mesmo sempre tendo trabalhado como neurocientista. Quando me dedicava apenas à ciência, sentia que ela não podia me satisfazer por completo. Tive sorte de conhecer o Matteo, que me apresentou a rota para esse mundo.

P: O que torna o cérebro humano um cenário típico de jornadas como a de Alice no País das Maravilhas?
MF:
O cérebro está no cerne da nossa própria existência e ainda há muita coisa sobre ele que não compreendemos. É um território não explorado onde ainda podemos ter esperança de encontrar respostas para todas as nossas dúvidas.
HR: O fato de não entendermos o funcionamento do cérebro é o que o torna o cenário ideal para aventuras de ficção.

ILUSTRADORES CLÁSSICOS DE LIVROS CIENTÍFICOS, COMO FRITZ KAHN E DA VINCI, FORAM A INSPIRAÇÃO

P: É possível vermos mais trabalhos acadêmicos apresentados como HQs num futuro próximo?
MF: Os quadrinhos viraram um meio respeitado e há uma pressão crescente para tornar pesquisas mais abertas e acessíveis. Acho que os quadrinhos podem ser o formato ideal, mas talvez não em um futuro próximo.
HR: Quadrinhos têm a vantagem de oferecer algo diferente do texto acadêmico. No entanto, não acho que eles irão, ou deverão, substituir a pesquisa acadêmica. É necessário ter ambos servindo para seus respectivos propósitos.

P: Que público tinham em mente?
MF: Talvez alguns conceitos sejam complexos para jovens leitores, mas espero que o fator estético chame a atenção deles. Já os profissionais da ciência podem apreciar o assunto visto de outra forma.
HR: Nunca pensei em quem poderia ler esse livro. Era algo que eu queria fazer para mim, como uma forma de expressar coisas que estavam na minha cabeça. Não sabíamos se iria funcionar. Era bastante experimental, então nunca presumi que um determinado público iria ler.

P: O quadrinista norte-americano Chris Ware disse que os “quadrinhos são por definição uma arte da memória”. O que vocês acham dessa afirmação?
MF: Foi ao conhecer o trabalho do Chris que entendi que HQs podiam ser usadas para falar de ciência. Não percebemos a realidade como uma sequência linear de eventos, mas como uma confusão repleta de camadas que mesclam presente, passado, futuro, memória e expectativas.
HR: A forma como os quadrinhos nos fornecem fragmentos é similar ao modo como construímos nossas memórias. É a transitoriedade e a desordem dos quadrinhos que me conectam a eles.

 

 

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