maio 15 2017

Da Educação Infantil ao Ensino Fundamental: a música como elemento de integração

DA EDUCAÇÃO INFANTIL AO ENSINO FUNDAMENTAL:  A MÚSICA COMO ELEMENTO DE INTEGRAÇÃO

Líliam Cafiero Ameal [1], Wasti Silvério Ciszevski Henriques [2], Thelma Nunes Taets [3], Ronaldo Murtinho Braga Cotrim[4]

Resumo: O presente trabalho refere-se a um relato da experiência de uma proposta de Integração entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental por meio da prática musical, realizada em 2014. A proposta está apoiada na abordagem sociointeracionista (VYGOTSKY, 1989), com foco na prática musical (SMALL, 1995). O brincar foi o eixo integrador da experiência (HORTÉLIO, 2003) e propiciou vivências sócio interativas entre crianças de diferentes faixas etárias. Observamos que esta proposta teve papel fundamental e integrador neste processo de passagem da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, um dos principais desafios na vida escolar das crianças.

Palavras-chave: Educação Musical. Educação Infantil. Ensino Fundamental. Brincar. Integração.

Introdução

 Os alunos do Colégio Pedro II do Campus de Realengo – Zona Oeste do Rio de Janeiro – ao saírem da Educação Infantil rumo ao Ensino Fundamental têm-se deparado com grandes mudanças. Novos professores, salas de aula, colegas e, principalmente, outro espaço físico.  Em meio a tantas transformações, os professores de Educação Musical – tanto da Educação Infantil como do Ensino Fundamental – pensaram em promover uma vivência musical das crianças do último ano da Educação Infantil com alunos de cinco e seis anos, junto às crianças do 1º ano do Ensino Fundamental, de seis e sete anos.

A partir de 2006, com a ampliação do Ensino Fundamental para nove anos, a criança de seis anos já entra no 1º ano. Este estudante se torna uma grande preocupação, já que começa a fazer parte mais cedo de uma nova estrutura, geralmente mais formal. Em um documento do Ministério da Educação e Cultura – MEC, com orientações para a inclusão da criança de seis anos no Ensino Fundamental, são destacadas algumas questões com relação a essa criança: “Quem é ela? Que momento ela está vivendo? Quais são os seus direitos, interesses e necessidades?” (BRASIL, 2006, p. 19).

 Ao adotar como ponto de partida o respeito à criança de seis anos, repleta de desejos e necessidades, é que surgiu a proposta de integração aqui relatada, de modo a tornar a passagem da Educação Infantil para o Ensino Fundamental mais “leve” e natural.

Objetivos da Experiência

  • Integrar as crianças da Educação Infantil e do Ensino Fundamental por meio da prática musical e do brincar;

  • Estimular e gerar trocas de experiências entre os alunos durante o fazer musical, no cotidiano da sala de aula;

  • Oportunizar vivências interativas com alunos de diferentes idades e níveis de escolaridade em novos espaços;

  • Promover a visitação e a prática musical nos espaços do Ensino Fundamental por parte dos alunos da Educação Infantil;

  • Auxiliar no processo de passagem das crianças da Educação Infantil para o Ensino Fundamental.

  Fundamentação Teórica

Para fundamentar a experiência em questão usamos como base o  pensamento de Vygotsky, Small e Hortélio. Small (1995) é favorável ao ensino no qual o acesso ao conhecimento é apoiado e integrado pelas vivências musicais, o que encontra ressonância na importância que Vygotsky (1989) aponta para a imersão do aluno em ambiente específico. Pode-se observar, então, uma forte convergência de ideias entre Vygotsky (1989) e Small (1995). O homem é um ser social, que aprende na relação com o outro e que assimila aquilo que tem oportunidade de vivenciar.

Podemos dizer que os alunos tocam, ouvem, veem, cantam, movimentam-se, brincam e estão realizando o ato musicking[5].  E é no ato de fazer música, segundo Small (Ibidem), no musicar, que encontraremos os meios favoráveis ao ensino e aprendizagem musical.

Outro aspecto importante a ser considerado é a preocupação que as interações e brincadeiras, eixos da Educação Infantil, conforme as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2010), também possam ser contempladas no Ensino Fundamental.

 A pesquisadora da música e cultura infantil Lydia Hortélio, reforça essa importância: “Toda criança gosta de música, poesia, brinquedo… Não será, pois, oportuno, favorecer-lhes a índole e levá-las a tocar seu destino com confiança?” (HORTÉLIO, 2003, p.97)

Experiência de Integração      

O local escolhido foi a sala de música do Ensino Fundamental.  O movimento das crianças da Educação Infantil ao visitar o novo espaço foi de curiosidade e exploração. Elas olhavam deslumbradas para os corredores, salas, professores, funcionários, crianças, com um brilho nos olhos e desejo de tornarem-se parte do novo espaço.

            Na busca por um repertório em comum para a troca de experiências entre as crianças, foi escolhido um tema referente às origens e formação da Música Brasileira: a contribuição das culturas portuguesa, indígena e africana para nossa música.

O desenvolvimento se deu em dois momentos distintos: o aprendizado de cada grupo de alunos em quatro aulas – oferecidas no seu próprio espaço escolar – e depois, em data marcada, a realização da aula em conjunto na sala de música do Ensino Fundamental, com duas turmas de cada vez, sendo uma classe de alunos da Educação Infantil e outra com alunos do 1º ano do Ensino Fundamental. Os alunos puderam realizar importantes trocas do fazer musical e do cotidiano da sua sala de aula em outro espaço de aprendizagem, maior, com mais alunos, de diferentes idades e níveis de escolaridade.

O retorno das crianças foi muito positivo. Elas contavam com entusiasmo como foi um momento marcante e o quanto estavam ansiosas para que o próximo ano chegasse.

Algumas considerações

Acreditamos que por meio da integração oferecida pela disciplina de Educação Musical, os alunos puderam vivenciar novamente uma forma lúdica de sistematizar conceitos importantes, por meio de brincadeiras.

A vivência musical ampliada percebeu-se por meio das relações estabelecidas pela música, gestos de cooperação, solidariedade e de amizade, vinculadas a partir do universo musical determinado. Desta forma, apontamos a importância de atividades do fazer musical estabelecidas dentro da prática sócio interativa, como ponte entre o conhecimento adquirido e o novo, entre os vínculos novos e os já estabelecidos, entre o afetivo e o cognitivo, permeando todo o desenvolvimento dos nossos alunos.

Por fim, observamos que a experiência foi significativa à desafiadora e temida passagem da Educação Infantil para o Ensino Fundamental e que a música, por sua natureza integradora, foi fundamental nesta transição. Esperamos que esta seja uma prática repetida anualmente e que possa inspirar novas parcerias e propostas de integração.

Referências:

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Ensino fundamental de nove anos: orientações para a inclusão da criança de seis anos de idade. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Departamento de Educação Infantil e Ensino Fundamental. Brasília: FNDE, Estação Gráfica, 2006. Disponível em: www.mec.gov.br/seb. Acesso em 28/09/2015.

HORTÉLIO, Lydia.  “Brincar é o último reduto de espontaneidade que a humanidade tem” in: Pátio Educação Infantil, Ano I, Nº 3, Dez 2003/ Mar 2004.

SMALL, Christopher. Musicking: a ritual in social space. Cielo, Texas, Apr. 1995. Disponível em: <http://www.musikids.org/musicking.html>. Acesso em: 29/09/2015.

VYGOTSKY, Lev Semenovitch. A formação social da mente. Tradução coordenada pelo Grupo de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos. Departamento de Ciências Biomédicas da USP. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

Imagens: www.google.com.br/imagens

[1]  Mestranda em Educação, Gestão e Difusão em Biociências, IBQM. (UFRJ). Professora de Educação Musical do Colégio Pedro II. Contato: liliamameal@yahoo.com.br

[2] Mestre em Música (UNESP) e doutoranda em Música (UNESP). Professora/coordenadorade Educação Musical – Educação Infantil – do Colégio Pedro II. Contato: wasti@uol.com.br

[3]  Mestre em Música- Educação Musical (UFRJ). Professora de Educação Musical-Núcleo de Artes Silveira Sampaio (SME RJ). Contato: thelmataets@hotmail.com

[4]  Mestre em Música e Educação (UNESP). Professor de Educação Musical – Educação Infantil – do Colégio Pedro II. Contato: ronaldo@acr.com.br

[5] Musicking é um termo criado por Small para dizer que a música, em sua essência, não é um substantivo, mas um verbo. Musicking é a ação de fazer música como fruto das relações interpessoais que acontecem em um determinado espaço social como, na sala de aula de uma escola de Educação Básica.

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2 comentários

    • Marilia Barbosa on 18/05/2017 at 13:40
    • Responder

    Acho mto interessante essa interação entre faixas etárias diferentes,trocas de vivencia e experiência musical.

    1. Muito obrigada por seu comentário!!! Grande abraço!

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