fev 01 2017

Experiência na aula de Artes: Jogo de Piões

JOGO DE PIÕES

Vera Rodrigues

Profª Artes Visuais, Colégio Pedro II

Imagem Pião 2

 

No segundo semestre de 2014, ao trabalhar jogos e brincadeiras com uma de minhas turmas do 5º ano, passei por uma experiência ímpar porque tratou-se de uma prática de reconhecimento e troca de saberes entre os envolvidos. Para iniciar o tema, mostrei alguns vídeos e um deles falava sobre a confecção de piões de madeira e outro, sobre a confecção de piões com sucata. O primeiro se passava em uma localidade da região Norte do país e o segundo, em uma região da periferia de uma cidade grande. As crianças ficaram impressionadas com os instrumentos – facões − que eram utilizados pelos meninos e rapazes que saíam para buscar a melhor madeira para seus piões e como esses piões eram esculpidos com uma destreza de mestres que sabem exatamente no que vai dar toda aquela ação. Mais interessante foi a surpresa de olhar o manejo do pião já pronto por um dos meninos – um dos mais velhos – que desfilava com o brinquedo pelas suas mãos, seus braços e pelo chão, como se o pião estivesse em perfeita sintonia com uma coreografia já ensaiada pelo tempo.

A construção de piões a partir de sucata − tampas de recipientes de detergente – chamou a atenção de dois alunos e eles, entusiasmados, diziam conhecer e saber como fazer e jogar piões daquele tipo. Pedi, então, a um dos meninos – aquele que mais se expôs – que trouxesse um pião daqueles na próxima aula. Perguntei a ele se não gostaria de ensinar à turma e a mim como fazer um. O menino aceitou a proposta de imediato.

Na semana seguinte, quando fui buscar a turma para a nossa aula, esse aluno veio rapidamente em minha direção com um objeto na mão. Para minha surpresa, não era um pião, mas eram vários piões construídos a partir de tampas de garrafas de detergente, muito parecidos com os do vídeo. O outro menino que também dissera saber construir piões na aula anterior, também havia trazido seu pião feito com os mesmos materiais.

Diante disso, a proposta de uma aula sobre confecção de piões a partir de sucatas tinha que ir adiante e o meu planejamento teve que ser modificado. Não totalmente porque ainda permanecíamos dentro de nosso tema, mas com uma abordagem muito diferente da planejada. Então, partimos para uma oficina de confecção de piões com sucatas, principalmente, tampinhas de detergente porque “funcionava melhor por causa do formato com o bico já pronto”, como me foi explicado pelo, agora, professor da turma. Deu-se, então, uma enorme busca por tampinhas de detergentes nos vários setores da escola. Enquanto que uns buscavam as tais tampinhas, outros alunos procuraram, nas várias sucatas que havia na sala de aula, outros materiais que pudessem também virar piões. Afinal de contas, a professora da turma não havia preparado o material da aula, conforme escutei como uma reclamação do aluno. O que era procedente porque eu não havia cumprido o combinado na aula anterior. Na verdade, eu não acreditei que o menino fosse levar adiante a proposta. Isso me fez repensar como, em muitas vezes, tendemos a minimizar as palavras e atitudes de nossas crianças. Foi mais um aprendizado naquela aula para mim.

Imagem Pião 1

As tampinhas chegaram e os outros materiais foram encontrados. Aliados a colas, barbantes e fitas adesivas, os materiais iam ganhando formas e coloridos. Todos, sem exceção, aprendiam a fazer piões e os meninos se empenharam muito para que nós aprendêssemos a fazê-los. Por fim, arrastando mesas e abrindo espaço no chão, deu-se início a um campeonato de piões que consistia na vitória do pião que permanecesse mais tempo na “arena”, derrubando os demais. Era a disputa que tínhamos assistido no vídeo, e os piões foram executados pensados para isso. Suas formas foram construídas com materiais que dessem mais peso e equilíbrio aos piões: “mas tem que prestar atenção porque se for muito pesado, ele não roda muito tempo e, se parar, a gente perde também”.

Para a tristeza da turma e minha, o tempo de aula acabou. Porém, a felicidade das crianças e a minha, não. Elas saíram da sala comentando que tinha sido muito bom ensinar para a professora como se fazia um pião. “Como uma professora de artes não sabia fazer um pião?” Esse questionamento foi maravilhoso e garantiu que aquela aula tivesse atingido seu objetivo. Eu me senti realizada porque pudemos colocar em prática tanta teoria que estão nos textos e livros que leio, além de poder reavaliar minhas práticas como professora e educadora. Eu pude reconhecer na prática todos os textos que li sobre professor mediador, proposta triangular e Paulo Freire falando bem pertinho de mim sobre a aprendizagem acontecendo ao fazer sentido para o aluno. Foi uma aula onde aprendi muito sobre trocas e reconhecimento, valorização e aprendizagem, identificação e lugares. Que lugar é esse de onde nos propomos a lecionar? De onde estamos falando e quem nos escuta?

Ao planejarmos nossas aulas, por mais que digamos que não, fazemos uma seleção do que acreditamos ser importante para nossos alunos. Nós procuramos fazer as adaptações que julgamos serem as melhores para atender a diversidade de nossas turmas e alunos. No entanto, durante as aulas é que podemos perceber se acertamos ou erramos, mas de qualquer forma, sempre sob o nosso ponto de vista. Isenção é uma utopia que estamos sempre à procura, mas o que já é ótimo se reconhecemos isso. Fazemos adaptações com o intuito de atendermos a todos. Atendemos? Como ter certeza disso? Nas avaliações? Avaliações realizadas por nós sob nossos critérios na busca de atender um conteúdo também elaborado por nós. Será que estamos em uma via de mão dupla mesmo? O reconhecimento de nossos limites, fraquezas e impossibilidades nos abre as portas para o encontro com os nossos alunos. E o fato de se permanecer consciente desse reconhecimento durante a elaboração dos conteúdos e planejamentos das aulas oferece uma certa garantia de responsabilidade e de um trabalho comprometido com nossos alunos em seus diversos aspectos.

Quem puder, assista o vídeo!

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2 comentários

  1. Gostei da postagem muito bem escrita seu blog tem me ajudado bastante. Conheça também o meu Canal “Ensinando meu Filho”, deixe seu apoio e inscreva-se https://www.youtube.com/channel/UCo_GJ-xMCWCeJ4jrPxcFk_A?sub_confirmation=1 . Obrigada. “

    1. Muito obrigada por sua participação! Parabéns pelo seu trabalho! Vamos mantendo contato e se tiver alguma experiência que possamos publicar aqui, será muito bem vinda!

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